sábado, 10 de setembro de 2016


Após perder perna em deslizamento, menina usa prótese e volta a brincar


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Primeiro, é preciso dizer que Ana Clara do Nascimento, 6, só vai falar uma única palavra nesta reportagem: "Sossego". Durante mais de uma hora, enquanto sua mãe, a cozinheira Antônia Gonzaga, 48, conta a saga de "Clarinha", a menina permanecerá em completo silêncio.
Ela vai rir –sem mostrar os dentes– e ainda fará cara de quem está se lembrando de algo, olhando para cima. Falar, mesmo, quase nada. Só uma palavra: "Sossego".
A família dela se lembra bem: no dia 10 de março, Clara perdeu parte da perna esquerda no temporal que matou 25 pessoas no Estado de São Paulo.Seis meses depois, a menina voltou a andar com ajuda de uma prótese, retornou à escola e, principalmente, voltou a brincar –o que ela mais gosta de fazer.
Choveu aquele dia todo. A casa da família ficava na parte de baixo de um morro em Francisco Morato, na Grande São Paulo. Na rua de baixo, há um córrego, que inundou. O bairro virou uma espécie de piscina com água barrenta.
"Escutei um estrondo. Meu outro filho, que é da igreja, gritou que o mundo estava acabando", conta Antônia, sentada no quintal da nova casa, bem em frente aos escombros da antiga. Clarinha escuta tudo, em silêncio.
O morro caiu em cima da casa, e a soterrou. A cozinheira e três filhos conseguiram sair antes e se salvaram. Mas cadê a Clara? Onde a menina foi parar no meio da avalanche? "Entrei em desespero, eu gritava por ela, eu sabia que ela estava soterrada", conta a mãe da menina.
Uma hora, depois de vários gritos, Clara respondeu: "Tô aqui, mamãe, tô no barro".
BRAVA
Os irmãos conseguiram cavar um buraco. Um deles, o técnico Danilo Costa do Nascimento, 22, tocou em um cabelo. "Achei que fosse da boneca de Clara, mas ela gritou: 'Para de puxar meu cabelo, Danilo'", conta ele. A menina sobreviveu à tragédia porque havia entrado debaixo de uma cama para procurar seus chinelos. O móvel a protegeu.
Mas Clara estava presa: uma coluna de concreto caiu sobre sua perna. Os bombeiros foram chamados. Tentaram, mas não conseguiram retirar os escombros de cima do pé da menina.
Dias após a tragédia, o médico Raphael Gargiulo Caggiano, 32, contou àFolha como ocorreu o resgate da menina:
"Tentamos por várias horas cortar a coluna, mas não estava funcionando. A gente não podia usar equipamentos maiores porque havia o risco de desabar de novo. [...] A Clara começou a entrar em processo de hipotermia. Ficou confusa, sonolenta, com a pressão baixa. Aí tive que tomar uma das decisões mais difíceis da minha vida. Ou a gente tirava o pezinho dela ou ela iria morrer."
A perna de Clara foi amputada, logo abaixo do joelho, após nove horas soterrada. Clara foi levada de helicóptero para o Hospital das Clínicas, na zona oeste da capital.
No início, ela estranhou a prótese, doada pelo hospital. "Ela não queria colocar, ficava brava, chorava. Achava que as pessoas iriam rir dela, não queria ir para a escola. Depois, começou a se adaptar. Hoje não liga mais", conta Antônia. A garota, porém, ainda tem um trauma: quando chove forte, ela pede para dormir com a mãe.
A família perdeu tudo na tragédia –vive à base de doações de um empresário que se emocionou com a história de Clara. Os irmãos perderam os empregos, um após o outro, nos meses seguintes à tempestade. A casa ficou totalmente destruída.
"Naquela época, o prefeito de Francisco Morato [Marcelo Cecchettini, do PV] me ligou e disse que iria dar uma casa para a Clarinha. Até agora, nada", conta Antônia. A família se mudou para um imóvel bem em frente.
SOSSEGO
Clara gosta de brincar em cima dos escombros de sua antiga casa, onde ela perdeu a perna. "Ela gosta de ir lá, não sei porquê. Ela olha o buraco e fala: 'Mãe, foi aqui que eu fiquei presa'", diz Antônia.
Clara sobe os escombros. O cachorro da família vai junto. Ela não fala. Está com vergonha, porque nos últimos dias caíram seus dentes da frente. Não quer mostrar que está banguela. Qual o nome do cachorro, Clara? "Sossego", diz ela. 
http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2016/09/1811992-apos-perder-perna-em-deslizamento-menina-usa-protese-e-volta-a-brincar.shtml

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