Programa espacial precisa entrar na lista de questões 'tangíveis' dos candidatos americanos
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AP
Foto divulgada pela agência de notícias chinesa Xinhua no último dia 16 de junho mostra lançamento da nave tripulada Shenzhou 9, a quarta do programa espacial chinês, com a primeira mulher chinesa astronauta
Como bem sabem muitos daqueles que, como nós, trabalharam com a política por muito tempo, se uma determinada questão não puder se traduzir imediatamente em votos nem for “tangível” para os políticos, existe uma chance enorme de que ela será ignorada ou descartada.
Para muitos dos nossos políticos eleitos, o cálculo político diário resume-se a isto: “O que é o melhor para o meu partido e o que é o melhor para mim?”. Nesta ordem. Atualmente há cada vez menos gente no poder que priorize a seguinte questão: “Qual é a melhor decisão que eu posso tomar que vá atender da melhor forma aos interesses dos meus eleitores?”. Portanto, não é de se admirar que um número cada vez maior de jovens esteja desistindo da política, enquanto as pessoas de mais idade abandonam os partidos políticos para se tornarem eleitores independentes.
Embora esse pragmatismo no sentido de priorizar as questões que deem retorno político imediato possa ser ótimo para os políticos, ele muitas vezes é péssimo para o país. “Tangível” é o jargão político para algo como, “esse prédio para funcionários públicos federais será agora construído no meu distrito eleitoral”.
Quanto ao “intangível”, um grande exemplo seria o nosso programa espacial. Ou, para ser mais preciso, o nosso programa “não espacial”. Ele nunca foi de fato relevante para a maioria dos nossos políticos ou presidentes. A verdade é que somente um presidente enxergou de fato a exploração espacial como um instrumento tangível para a obtenção de votos.
Fim da era dos ônibus espaciais da Nasa
Qualquer que tenha sido a sua motivação real, em 12 de setembro de 1962, na Universidade Rice, em Houston, o presidente John Fitzgerald Kennedy declarou sem rodeios que, em nome da ciência, da atividade industrial e da segurança nacional, os Estados Unidos tornar-se-iam a “nação líder na exploração espacial”. E nós de fato fomos o líder – por quase cinco décadas.
Mas atualmente essa proeminência não passa de uma memória que vai se apagando. O presidente Barack Obama – que, quando candidato, deixou claro que dava mais valor à educação do que à exploração espacial – pode até ter empurrado o programa espacial tripulado para o despenhadeiro, mas os presidentes que o antecederam levaram esse programa até à beira do abismo.
Como a Flórida é um Estado disputado e decisivo na eleição presidencial, a Casa Branca e os nomeados políticos para cargos na Nasa argumentarão furiosamente que o presidente não deu as costas para o programa espacial tripulado. Eles chamarão atenção para os planos de Obama de um dia fazer com que astronautas pisem em um asteroide. Claro. Mas essa meta, da mesma forma que o plano do ex-presidente George H.W. Bush, anunciado em 1989, de enviar astronautas a Marte, não passa de ficção.
Os seres humanos que estão atualmente vencendo a corrida espacial são cidadãos da República Popular da China. Está claro na própria propaganda deles que a China pretende substituir os Estados Unidos como a “nação líder em exploração espacial”.
Já foi dito no passado que, enquanto os Estados Unidos e as outras nações ocidentais enxergam o futuro em termos de meses ou anos, os chineses acreditam que as atividades futuras dizem respeito a décadas ou até mesmo séculos. Tendo esta perspectiva em mente, o governo chinês pretende vencer não apenas a corrida, mas também a maratona espacial. A China deseja assumir uma dianteira militar, industrial e científica nessa área.
O programa espacial chinês é essencialmente militar. A sua própria função é designada no sentido de atingir um objetivo militar ou uma meta que implique no aumento do poder do Estado.
Para conseguir isso, o governo chinês tem investido muito tempo e talento em uma gama de armamentos e tecnologias antissatélites. Além dos veículos de destruição por ascensão cinética direta (como aquele que foi testado em 2007), o programa espacial militar chinês está trabalhando também em armas a laser e micro-ondas, equipamentos para interferir nos sistemas de comunicação e nas tecnologias de ciberguerra. Mas por que foi que eles optaram por isso? Porque a liderança chinesa sabe que nenhum país do mundo depende mais da sobrevivência dos seus satélites do que os Estados Unidos. Os satélites controlam as nossas comunicações militares, transações financeiras e a vida cotidiana. O que aconteceria se eles deixassem de funcionar ou fossem destruídos em órbita?
Os líderes chineses certamente afirmam que uma vantagem militar no espaço é “tangível” e um objetivo que vale a pena alcançar. Mas a proeminência no espaço diz respeito a muito mais do que à vantagem militar. Neil deGrasse Tyson, diretor do Planetário Hayden do Museu Americano de História Natural em Nova York, resumiu esse argumento quando declarou à revista “Popular Science” no início deste ano:
Se a China construir uma base permanente na Lua, e tentar explorar Marte mais rapidamente do que nós, teremos uma nova corrida espacial. Eu tenho certeza disso. Estou procurando fazer com que isso seja implementado sem que as pessoas vejam tal iniciativa como um ato de guerra ou uma resposta a um adversário. Uma forma de conseguirmos isso é baseando tal iniciativa em fatores econômicos. O governo poderia engajar-se em tal projeto e dizer: “O retorno econômico são os cientistas e os técnicos que inventam o novo amanhã”. A exploração espacial é o instrumento incentivador que estimula as pessoas a se informarem sobre a ciência. Portanto, eu vejo isso como um plano de desenvolvimento econômico.
Talvez este seja o momento de o presidente e o seu adversário republicano, Mitt Romney, promoverem algumas questões para a lista de tópicos “tangíveis”, independentemente dos interesses pessoais ou partidários. Neste momento em que a China lança um satélite militar atrás do outro e declara a sua intenção de colonizar a Lua, talvez a questão da preeminência na exploração espacial deva ser realmente um desses tópicos cuja importância deve ser promovida.
Durante o período de transição após ele ter derrotado o senador John McCain em 2008, Obama cogitou agregar o melhor dos programas espaciais do Pentágono e da Nasa a fim de competir com o programa espacial chinês, que passava por uma rápida aceleração. Mas, por algum motivo, ele se recusou a implementar aquele plano após tornar-se presidente.
Obama deveria retomar tais planos. Considerando que no auge da Guerra do Iraque o nosso governo estava gastando quase um bilhão de dólares por dia, eu suspeito que os aliados de Obama concordariam com o investimento do equivalente a um mês daquele orçamento a cada ano para assegurar que os nossos equipamentos no espaço e o nosso futuro na Terra ficassem mais seguros. Mas, para apoiar isso, eles precisam primeiro ser convencidos da importância de tal iniciativa. E os nossos líderes também.
*Douglas MacKinnon foi secretário de Imprensa do ex-senador Bob Dole. Foi também redator nos governos dos presidentes Ronald Reagan e George H.W. Bush e assessor especial para políticas e comunicação do Departamento de Defesa. É autor do livro “Rolling Pennies in the Dark” (“Rolando Centavos na Escuridão”).
Tradutor: UOL
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