ANP: Chevron foi negligente e poderia ter evitado vazamento
19 de julho de 2012 • 15h50 • atualizado às 16h16
Os cinco pontos de vazamento identificados na fissura de 800 m no solo marinho, concentrados em uma área de apenas 10 m2, vinham sendo analisados pelos especialistas da ANP
Foto: Comando de Operações Navais/Divulgação
O relatório final da Agência Nacional de Petróleo (ANP) a respeito do derramamento de óleo na bacia de Campos, em novembro do ano passado, apontou negligência por parte da Chevron, que não seguiu seu próprio manual de procedimento. O documento foi divulgado na tarde desta quinta-feira, na sede da agência, no centro do Rio de Janeiro.
De acordo com o estudo final da ANP, a negligência acerca da perfuração do poço 9 Frade 50DP-RJ, no campo de Frade, feito pela petrolífera norte-americana, foi a 120 km da costa brasileira, na região norte fluminense, e causou um derramamento de 3,7 mil barris de petróleo no mar.
"O acidente poderia ter sido evitado caso a Chevron tivesse conduzido sua atuação em plena aderência às normas da ANP, e em conformidade com as boas práticas da indústria e com o seu próprio manual de procedimentos", afirmou o relatório de 68 páginas da ANP, que levou em conta ainda que "a Chevron não foi capaz de interpretar a geologia local, apesar de já ter 62 poços perfurados no local, e foi isso que culminou com o 'kick' (vazamento) e com a chegada do óleo ao mar (underground blowout)".
"É nossa conclusão que o erro da interpretação da fluído dinâmica do reservatório levou a uma estimativa incorreta do modelo de pressão do reservatório. A própria empresa elevou artificialmente a pressão, criando assim as condições para que o acidente se concretizasse. É nossa conclusão ainda que a empresa não utilizou os resultados de teste de resistência da rocha em três poços perfurados anteriormente na região. Se tivesse usado os dados disponíveis, o projeto teria se mostrado inviável", completou o documento.
Ainda de acordo com a ANP, a petrolífera se mostrou também tardia nos procedimentos de segurança para conter os vazamentos, uma vez que "a empresa demorou dois dias para perceber a situação de underground blowout, o que aumentou ainda mais o derramamento".
Toda a extensão do minucioso relatório será divulgada no site da agência reguladora até a próxima sexta-feira. Na próxima semana, deverá ser divulgado o valor da multa a ser paga pela Chevron. Ao todo, foram 25 autuações, sendo que cada uma delas tem o valor máximo de R$ 2 milhões. "No entanto, a gradação da pena depende de algumas coisas, por exemplo, a capacidade econômica da empresa, a reincidências e a gravidades dos fatos. Como é o primeiro evento, esse cálculo estará sendo feito nos próximos dias, mas será menos do que R$ 50 milhões (a multa)", avaliou a diretora-geral da ANP, Magda Chambriard.
Retorno de operações
A Chevron informou no início da semana que já encaminhou o pedido formal para retomar a produção de petróleo na Bacia de Campos. A partir desta formalização de retorno de atividades na região, a diretora-geral da ANP disse: "estamos analisando, mas não estamos vendo nada contra, a princípio. Esse resultado será dado nos próximos dias".
Ainda de acordo com Magda Chambriard, a produção no campo de Frade foi interrompida voluntariamente pela Chevron. "O que nós suspendemos foi a injeção e a perfuração. Em função disso, a Chevron solicitou a nós por medida cautelar a interrupção da produção e nós acatamos. Eles já nos solicitaram a retomada de produção, mas não em todos os horizontes".
Para que a petrolífera possa retomar suas atividades de perfuração na costa brasileira, Chambriard explicou também que a empresa tem que "mostrar para nós que está em concordância com o nosso relatório, e a partir da compreensão do incidente, demonstrar que existam medidas mitigadoras para tornar este risco mínimo e aceitável. É desta forma que funciona".
"A empresa vai submeter este cronograma de produção no próximo dia 27. Tudo depende do calendário e do processo de retomada, tudo isso será submetido a nós (da ANP)", completou a diretora.
Segundo derramamento
Em março deste ano, um novo vazamento de óleo, causado por uma fissura de cerca de 800 m no solo oceânico, a cerca de 3 km do primeiro acidente, foi registrado pela Chevron e constatado pela ANP. A empresa americana, a partir deste novo incidente, interrompeu suas operações no Brasil, fato inédito para uma petrolífera até então.
A falta de revestimento na parede do poço teria sido também a causa do derramamento, que teria sido de pequenas proporções, mas as investigações ainda estão em andamento e o relatório final sobre as causas deste segundo acidente ainda não tem previsão para a sua conclusão. "Ocorreu um afundamento de 70 cm do solo marítimo, e esse incidente está com processo administrativo aberto, e está sendo analisado", esclareceu a diretora-geral da ANP.
- Terra
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